
11:11.
Olhei no relógio e vi uma sequência numérica de 4 digitos. Simples 4 digitos: 11:11. Símbolos numéricos, simples e retilíneos. Uma estúpida sequência numérica para marcar um determinado tempo no espaço. Um tempo que poucos paravam para reparar...Ou muitos talvez, o que importa? Naquele exato momento de estúpidas sequências numéricas centenas de pessoas morriam, centenas nasciam, centenas eram felizes, e centenas infelizes. E eu? O que eu era? Eu não sei...Eu sei que estava ali, sentado no vagão do metrô olhando o mapa retilínio das estações enquanto a chuva caía densa lá fora.
Tudo era feito por sequencias retilíneas. Tudo muito reto e objetivo. Reto e perfeito. Bem desenhado, planejado exatamente como tinha que ser. Eu ali no banco, torto, de pernas abertas. Cansado do marasmo.
O vagão parou e algo mal cheiroso entrou. Aquela velha maltrapilha, fedia a qualquer coisa que não te agradaria, e não agradaria a ninguém. Não era cheiro de esgoto, nem de coisa morta, nem de excreto humano. Era cheiro de humano. De como ele realmente é. Sem chuveiro quente, sem desodorante e sabonete. Sem nada. Simples assim. Reto e retilíneo.
Eu só conseguia reparar em uma coisa. A velha sentada parecia a morte. Aquela dos filmes de criança. Aquela que persegue você e te leva para-não-sei-onde.
Ela não olhava para mim. Sorte a minha! Dizem que a morte não pode cruzar o seu olhar...
Aquela velha fedida e maltrapilha não olhava para nada, nem para ninguém.
Aquela velha estranha, maldita e de peles murchas e sofridas me causava náusea. Eu fechei os olhos e quando o vagão parou novamente, junto com o silêncio dos trilhos calmos veio o grito histérico de um bebê. Ao abrir os olhos do meu tédio, eu vi que aquela velha fedorenta trazia no meio de suas vestes escuras e sujas um bebê branco como as nuvens pálidas lá fora. Branco como qualquer branco que é muito branco e limpo. Puro e perfeito.
O contraste do bebê naquela roupa suja e fedida me fez observar minuciosamente aquela cena.
A velha, com toda ternura do mundo, balançava cuidadosamente o pequeno nos seus braços surrados. A estranha sorria com os dentes podres, mas de nada podre tinha! Pois naquele sorriso emanava o mais puro amor do mundo. Tão puro que fez-me envergonhar de pensar que o mais puro amor do mundo, saía da morte em si.
"Dona aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou..."
A morte sabia cantar e trazia com você o paradoxo mais perfeito: o amor e a esperança de uma vida em seus braços.
A cantiga fez me pensar que amor não tem cheiro, nem gosto, nem nada. É claro e óbvio, simples e retilíneo.
Exite coisa mais parecida com o amor e a vida, do que a própria morte?
Eu não sei...
Somente levantei e a velha feia moribunda me olhou fixamente nos olhos e continuava a cantar:
"Já passou a chuva, o sol já vem subindo e a Dona aranha continua a subir..."
Eu simplesmente saí do vagão estarrecido e com o maior amor do mundo preso em mim. Preso na minha mente sem lembrança.

Mermão!!
ResponderExcluirComo já havia dito, simplesmente perfeito!! Profundo!!
PARABÉNS!!
Abcs!
PQP, sempre arrazando ...!!!mto bom ;~
ResponderExcluirte amo (L)
Acabo comigo... mas não com o meu amor!
ResponderExcluir