quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ciranda Cirandinha


"O mundo não pára pra você não! O mundo não pára pra ninguém", gritava a mulher pra filha pequena no ônibus encardido em direção ao centro. Abri os meus olhos, mais uma vez eu dormia no caminho. Mas dessa vez não era sono, era cansaço. Estava cansado de repetir e repetir as mesmas situações. De repetir o mesmo caminho, do mesmo jeito, com a mesma roupa, no mesmo céu nublado, com as mesmas pessoas. Era como um carrocel, como uma ciranda estúpida de roda, baseada em pessoas tão complexas quanto você mesmo. Era como dançar, dançar e dançar e simplesmente não poder parar, não importa se você esteja cansado de saber o ritmo. Você tinha que dançar. Você era obrigado a dançar.

A menina esperniava nos pés da mãe puxando-a pela barra da saia. A mãe grosseira e mal-amada dizia a filha sermões que ela não entenderia naquela inocente idade e sermões que ela mesmo não queria ouvir. Ela só queria o doce. O maldito e feliz doce que a faria contente somente por aquele dia, talvez por apenas horas. Pra nós era apenas um maldito alimento açucarado e enjoativo, colorido artificialmente e coberto por granulados coloridos apenas para aparentar mais bonito e esconder o aspecto da mesmice de um doce.

O doce para menina birrenta e chorosa é aquele cheio de açúcar, que faz você se contorcer só de imaginar você em cima da balança com algumas gramas a mais, mas para mim doce tinha outro significado.

Doce para mim é levantar no sábado ensolarado e ventoso as 7 da manhã para ir trabalhar e lembrar que sábado não é meu dia de expediente.

Doce para mim é estar morrendo de vontade de fazer xixi e simplesmente dar risada sozinho quando estiver esvaziando a bexiga em qualquer lugar.

Doce é rir com os amigos da piada mais estúpida e sem graça que qualquer um poderia escutar.

"Doce, doce, doce, a vida é um doce, vida é mel...Espalha na boca feito doce, pedaço do céu"

Cantava a menina nos braços da mãe, toda lambuzada, suja e grudenta do querido e almejado doce. A mãe, já irritada com a filha cantarolando, olhava inerte para as ruas que passavam através da janela.

A mãe de um lado. A Filha do outro. A filha sorrindo. A mãe lamentando. E eu assistindo. Nem sorrindo, nem lamentando. Apenas olhando.

"Ciranda cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar"

Cantei para mim mesmo. A cena parecia uma ciranda. Cada um em uma posição. A filha sorrindo, a mãe lamentando. A menina na luz, a mãe na escuridão. A menina na escuridão, a mãe na penumbra. E eu assistindo. Era uma ciranda de roda, cada hora você estava em uma posição. A questão era: você não podia parar. Ninguém podia parar.

Desci do ônibus e me coloquei a olhar a menina pela janela. Ela brincava com os dedos lambuzados e a mãe a reclamar.

Aonde eu estava na ciranda das duas?!

Eu não sabia...Mas aquele momento a felicidade daquela menina me pos a pensar: Eu não podia parar de dançar.

"Ciranda cirandinha vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volva e meia vamos dar..."


R. Plotegher. Jr.

Um comentário: