sexta-feira, 8 de abril de 2011

Degraus de Sangue


A sala está cheia. Cheia de semi-almas, semi-cabeças, semi-pessoas, semi-futuros. É um lugarzinho na boca da esquina ensolarada, com vira-lata latindo, tias fofocando, pessoas andando.



A menina entra na escola, cansada, sonolenta, cadarço desamarrado, mochila de esquerda, amiga de direita.
Ela entra meio calada, fadigada, entediada.
Era mais um dia de aula, mais um dia de semi-alfabetismo.
Os outros contam piada, empurram a preguiça, e chiam o S. Falam gíria do morro, gíria de malandro sem nenhum "malandrismo".
A menina fica calada, vendo tudo e não participando de nada.
A professora semi-gorda, com os seios semi-vestidos suplica o interesse de todos em entrar na sala quente, entupida de carteiras encardidas.
Ela entra na sala, senta, e desinteressada, mira as frases pichadas na carteira.
No meio de letras apagadas, tortas e ilegíveis está escrito: "Quem sabe ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola, sozinha..."

Ela entende aquela frase, e sabe que já escutou em algum lugar. Fica pensando calada e mostra para a amiga, que só quer saber de malandragem.

Alguém aparece na porta e tem uma arma de brinquedo a tira colo. Seria mais uma palestra sobre violência.
A menina fica assustada quando ela ouve o disparo e o sangue espirrando na parede branco-encardido. Ela olha para amiga que já está no chão morta, ensaguentada.
Você foi escolhida para morrer, menina semi-crescida.

Ela ouve o barulho e quando percebe está no chão, sente algo quente, queimando seu peito e sua vista escurece. Ela sente o sangue dela escorrer pelo chão , ou de outro alguém, molhando seu rosto. A menina semi-crescida não tem força para levantar, e pensa na vida. Ela sente o chão tremer, de gente que corre, de gente desesperada. Os gritos ficam ocos, distantes, e ela pensa na vida. A menina semi-crescida é pisoteada pelo desespero, pelo choro, pelo vazio, e ela pensa na vida.
A menina é pisoteada pela vida.

Ela morre calada, de olhos abertos. Esperando a vida voltar.
O chão encardido é lavado de vermelho vivo, morte-viva, de morte-morrida.
Os degraus de sangue, que antes levantavam pernas vivas, crianças semi-crescidas, agora levantam tristezas, lembranças encardidas, sonhos apagados.

É um dia ensolarado banhado de sangue sem malandragem, numa cidade semi-cidade, em um país semi-país, com gente semi-desenvolvida.



A rua está cheia. Cheia de semi-almas, semi-cabeças, semi-pessoas, semi-futuros. É um lugarzinho na boca da esquina ensolarada, com vira-lata latindo, tias fofocando, polícias passando.

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